
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
O Palhaço

quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Sobre olhares e fracassos
''Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?''
Álvaro de Campos
Digam-me! Onde há gente nesse mundo?
Estou, assim como Álvaro de Campos, farta de pessoas boas em tudo. Gente que não erra, que não tem espinha, que nunca escolhe a roupa errada ou com um furo. Que só conhece a felicidade. Gente que não ri da própria desgraça, mas adora rir da desgraça alheia.
Acho que somos muito mal preparados para a infelicidade e para o fracasso. É feio chorar e dizer que não deu certo. O fracasso é jogado para debaixo do tapete e nunca é superado, afinal de contas, é mais fácil falar: ''Coitado, deixa ele. Ficou traumatizado.'' E assim vamos criando uma sociedade que cada vez mais infantil e fraca nos princípios...
Faço estágio em uma escola de ensino médio próxima a minha casa. Observo muito o comportamento dos alunos e tenho vontade de dizer para alguns: ''Meu bem, a vida não é assim. Você tem tantas chances de abrir essa mente... Vamos lá. Não é feio pedir ajuda.''
Vejo a frequente exibição de notas baixas como troféus. Se não se pode tirar a nota alta, então que se faça da nota baixa a meta a ser alcançada. É mais fácil adaptar as regras do jogo a nosso favor. Assim como as crianças fazem.
Temos que ser as mais bonitas, as mais inteligentes, saber tudo sobre tudo, não pegar no pé, não ter ciúmes, não deixar a relação cair na rotina, ter um bom emprego. E não reclamar. Cobramos companheiros perfeitos que trazem flores, chocolates na TPM e palavras preparadas especialmente para aquele dia que tudo deu errado. Que sejam atenciosos, inteligentes, engraçados, independentes.
''Se não for assim, não quero!''
''Se não for perfeito, eu não quero.''
''Não quero um fracassado na minha vida.''
Infelizmente os mais velhos tem razão: A vida não é só felicidade.
Comecei com Pessoa e gostaria de citar outro Fernando, mas desta vez o Sabino:
Luana H.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Pra onde foi a coragem do meu coração?
''Quem me dera ao menos uma vezExplicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.''
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Castanho-esverdeado.
E vendo essas fotos me peguei surpresa ao olhar para a minha barriga e descobrir que a mancha ainda está lá. Corri para o espelho, olhei bem fundo dos meus olhos e fiquei procurando o verde-escuro. Encontrei.
Pequenas coisas que me fazem perceber que penso tanto, me preocupo tanto ''comigo'' mas não consigo mais ver claramente o ''eu'' que sempre fui.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Ninguém = ninguém
Todas as experiências de sexo são iguais.
[...]
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho impar''
Carlos Drummond de Andrade

Drummond é fantástico. Ele sim era um real ímpar. Glorioso ímpar. Saudoso também, é claro.
Pois bem. Tenho medo de muita coisa que eu tenho lido, sabe. Acho que estamos em uma época que todos temos receitas de sucesso para tudo. ''Como arrumar um namorado'', ''Como fazer sua vida mais feliz'', ''Como lidar com o tipo x de pessoa''. Ótimo. Estamos com todos os problemas resolvidos. ou não
Criamos um contrato inconsciente com a perfeição. Nos obrigamos a ler mil listas e nos sentirmos infelizes por não cumprirmos todas as cláusulas. Assinamos o contrato sem ler, meu amigo. E agora, José?
Claro, para muitas coisas nessa vida existem técnicas. Técnicas praticamente infalíveis, eu arriscaria. Mas e para o ser humano? Para lidar com pai, mãe, irmão, namorado, amigo, marido... Cadê essas técnicas realmente infalíveis?
Confesso que caio nessa armadilha com frequência. Vez em sempre me pego lendo esses blogs que dão mil dicas sobre relacionamentos. E não me sinto bem. EU FAÇO TUDO ERRADO!
Homens gostam disso desse jeito e mulher gostam disso de outro jeito. Eles estão mentindo se disserem que vão dormir. Elas fingem orgasmo. E metade do mundo vai levar como verdade. Ou dar um bom crédito a veracidade da informação. Assunto recorrente nessas listas é o sexo, obviamente. Em alguma coisa vamos nos sentir inseguros quanto a isso. Não importa o que for, a lista vai apontar o dedo no seu nariz e tentar te convencer que você não é sexualmente atraente o suficiente. Com toda aliteração que a acusação me permite.
O que fazer, como fazer, como olhar, como tocar o outro. Não estou dizendo que tudo é de se jogar fora, por favor.Mas e se o outro não gostar de nada disso? E se eu não gostar de nada disso?
Esses dias, nessas andanças no mundo dos conselhos amorosos, li um texto muito interessante no Papo de Homem. Com certeza vale a leitura!
Como ele diz no final, tesão pela vida, meu povo. O tesão pelo outro, do outro por você, vem na esteira.
Enfim, acho que o único ponto que eu quero chegar com isso é que o ser humano não tem receita que garanta o sucesso. Somos ímpares, como bem disse Drummond. Ímpares em sentimentos, ações, personalidade, gostos e, principalmente e felizmente, em pensamentos.
Luana H.
domingo, 17 de julho de 2011
Daquilo que verdadeiramente somos.
''Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.''
Martha Medeiros
Este marasmo tempo de férias de tudo tem me levado a uma pergunta única e constante: Quem sou eu de verdade?
Sim, essa pergunta tão fatal, simples, filosófica, retórica, essencial, infantil, sei-lá-o-que-mais. Foram muitas consagradas tentativas de iluminar esse caminho tão complexo. De Lewis Carrol, com a curiosa Alice, ao fabuloso José Saramago, com o romance mais dolorido e verdadeiramente humano que eu já li.
É difícil aceitar que a descrição de Luana, e toda formação imaginária que ela traz, possa responder essa pergunta.
E realmente não responde. A Luana professora não mostra que o que ela é agora traz a lembrança de muitas professoras. Traz aquela aula em que a professora falou sobre como só podemos ser interiormente atingidos se deixarmos. Traz aquela aula em que um assunto polêmico foi discutido ou aquela outra em que lemos um texto sobre o valor da amizade.
A Luana amiga, sorridente e engraçada não deixa tão evidente que aquelas tardes de conversa e tentativa de estudo deixaram marcas profundas. Boas e ruins. Meu rosto não mostra aquele abraço com lágrimas nos olhos que eu dei nos meus melhores amigos da oitava série no último dia de aula.
Eles não sabem que sou feita de livros, músicas, lágrimas, sorrisos, momentos bons, ruins. E outro fato curioso é que nem eu mesma sei o que forma essa estranha matéria. Como diria Alice, ''Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma''.
Não sei quais são esses pequenos pedacinhos que formam uma pessoa inteira. Não sabemos e ainda assim caímos nessa armadilha e achamos que conhecemos o coração das pessoas ao ponto de julgá-las. De dizê-las o que pensar, o que não pensar, o que achar,o que dizer, o que comer, o que vestir. Ou pior ainda, achamos que as pessoas são realmente o que vestem, o que comem, o que dizem.
Afinal de contas, como diria o grande José Saramago ''dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos''.
Luana H.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Egoísmo. Oportunismo. Amor.
'' Mas quem tem coragem de ouvir

Quem não acompanhava o Contos e Confissões ainda não sabe de uma grande paixão que venho descobrindo: Sou professora.
Confesso que a profissão que escolhi me emociona muito e me inspira diversos sentimentos. Nobres ou não, o maior deles é o egoísmo.
Pois bem. Resolvi ser professora por puro egoísmo. Isso. Egoísmo puríssimo.
Egoísmo porque vejo neles traços dos meus colegas de escola, dos meus momentos de escola e, até mesmo, traços de mim mesma.
Egoísmo porque projeto neles o que eu fui, o que eu não fui, o que gostaria de ter sido...
Egoísmo por me sentir responsável, um pouquinho que seja, pelo futuro deles.
Profundamente egoísta porque quando vejo o desespero deles diante de uma prova ou um trabalho da escola, lembro que eu já passei por isso. E assim como eles, achei que nunca ia passar. E passou. Assim como tudo vai passar, menos as boas lembranças.
Egoísta ao ponto de procurar no rostinho deles semelhanças com o meu e pensar: Será que meu filho vai ser assim?
O amor de adolescente, o riso sincero da brincadeira de criança, a amizade que parece ser eterna, o companheirismo. Um egoísmo que me permite olhar de outro modo tudo isso, sabendo que já passei por aquilo e sinto muita saudade. Ou será inveja?
Oportunismo. Isso. Oportunismo. Aproveito-me da oportunidade de conviver com o fruto de nove meses de espera de outra mulher para experimentar um pouquinho da sensação de querer proteger e educar uma criança. Da vontade de querer aplacar suas dores, abraçar, ver o desenvolvimento, chorar de emoção nas apresentações. Experimentar um pouco, mas bem pouco mesmo, do que é ser mãe.
Não. É egoísmo mesmo. Egoísmo porque tiro deles a força para continuar, mesmo quando todas as vozes dizem que não vai dar certo.
Egoísmo do mais puro, e por que não do mais nobre também, porque tenho o sonho utópico de que as palavras levadas por meus alunos ainda vão mudar o mundo.
Luana H.