domingo, 21 de julho de 2013

Por que eu não gosto de best-sellers ou uma visão sobre literatura



''Em ciência leia sempre os livros mais novos. Em literatura, os mais velhos.''
Millôr Fernandes

Literatura é uma coisa engraçada. Tem gente que acha que tudo é literatura e outros que somente o que a academia considera. Ou isto ou aquilo, como diria Cecilia Meireles. Eu não sei o que acho. Só desconfio.
Eu sou apaixonada pela literatura que liberta. Pela literatura que tem a vida real como matéria, os problemas reais. Como diria Drumoond, ''os homens presentes, a vida presente''. Pelas histórias que falam de um chão forte, de pessoas fortes. Gosto de livros que doem de verdade.
Eu não leio para esquecer, leio para lembrar e cutucar a ferida mais fundo ainda. Na FLIP deste ano, um palestrante disse que bons poemas são como as pedras de Paraty, pois fazem com que você tenha que se reequilibrar, repensar o trajeto, sair do conforto.
Eu não consigo ler um bom livro sentada em um lugar calmo, bebendo uma xícara de café quente. Talvez um best-seller. Dizia uma professora minha que esse tipo de livro é literatura de descanso. Eu concordo. Nem todos são, é claro. Há sucessos de livraria tão desconcertantes como os poemas de Drummond. Dizem que gosto é gosto e eu sinto o de Mc Donalds quando leio algo do tipo. Vai me deixar feliz, mas não vai me alimentar direito.
Eu, Luana, gosto daquilo que me tira o sossego, que me faz pensar, que me sensibiliza. Sabe quando você come algo de sabor azedo, mas aquela sensação de estranhamento te faz querer mais? Então, é mais ou menos isso...
Prefiro os clássicos e a literatura marginal, é fato. Confesso que tenho resistência a certos segmentos e fico brava com quem torce o nariz para o que eu gosto. Dizem que gosto não se discute, mas em termos de formação leitora a coisa muda de figura. Se as leituras que fazemos moldam nosso pensamento crítico, como pensar criticamente com idéias tão prontas? Não estou pedindo fogueira aos livros essencialmente comerciais, mas há de se pensar sobre. Os clássicos sempre serão os clássicos e devem ser lidos sim. Proficiência leitora se adquire quando ousamos mais, quando vamos além do que já lemos. Vocabulário elaborado, situações mais complexas, problemas sociais, estilo, retrato de uma época...
''Luana, mas os clássicos também não são, de alguma forma, best-sellers?''
Só no nome.
Li Querido John, do escritor Nicholas Sparks, e não morri de amores. Não mexeu comigo. Por outro lado, quando li A Menina que Roubava Livros, do Markus Zuzak, fiquei simplesmente chocada. A força das descrições, das cenas, o estilo, tudo me prendeu. Pensei na Anne Frank e em todas as histórias parecidas que já li. Por isso mesmo não quero ser extremista. Há exceções.
Por tanto, não quero terminar esse texto com um conselho ou alguma conclusão sobre isso, pois não tenho.
Aliás, tenho sim: Independente do que for, leia.




Luana H.

domingo, 9 de junho de 2013

Quem seria eu se não fosse tudo isso




Se não fosse pela sinceridade extrema, a insatisfação crônica e vontade de enxergar poesia em tudo eu não seria tão eu.
Não seria tão eu se não fosse a mancha na barriga, o rodamoinho que se forma no meu cabelo nas laterais, o sorriso e riso fácil e a briga eterna com a balança. Não seria se não fosse o cabelo castanho pintado de loiro, os óculos, a voz mais grossa e a timidez ocasional.
Eu não seria tão Luana se não fosse os livros e textos soltos que li, se não fosse a criança abaixadinha no supermercado preferindo o livro ao brinquedo, se não fosse a paixão pelas palavras.

Não seria tão eu se não fosse o Zé Ramalho, a Elis Regina, o Gabriel o Pensador, o Charlie Brown, O Teatro Mágico e o gosto musical variado. Não fossem os muitos shows que fui na companhia das minha primas, os verões na praia com a família toda, os domingos de brincadeira na rua, as manhãs assistindo clip juntas na tv e dançando feito louca eu não seria tão eu.

Eu não seria tão eu se não fosse pelo teatro, pelas escolas que passei, pelas pessoas que eu conversei. Seria outra se não fosse pelos amigos que tive e que ainda sinto saudade. Não seria eu se não fosse por essa saudade eterna de todo minuto que se passa. Seria qualquer pessoa menos eu mesma se não fosse pelo choro fácil que vem na tristeza e na alegria, se não fosse pela emoção à flor da pele.

Não seria eu se não fossem as decepções amorosas da adolescência, se não fosse o romantismo incurável misturado a uma boa dose de realidade, se não fosse o ''conheço um cara que eu consigo imaginar casando com você''. Não seria tão eu se não fossem as conversas na internet de madrugada, o amor e a dificuldade compartilhados, se não fosse a distância.

Não seria tão eu se não fosse professora, se não tivesse estudado Letras, se não tivesse tido uma crise de identidade no meio do curso. Não seria tão eu se não tivesse tantas dúvidas sobre quem eu escolhi ser.


Não seria tão eu se não fosse tudo isso.



*Escrevi esse texto a partir de um meme indicado pela Fran. Adorei escrever! Indico a quem quiser fazer.



Luana Ribeiro



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sujeitos ocultos

''Quem são eles?
Quem eles pensam que são?''



Vão te dizer que você não pode, que é um incompetente e não adianta fazer mais nada.
Vão te fazer pedir desculpas por existir e respirar. Pedir desculpas por ocupar um lugar no mundo.
Vão te dizer que você é jovem demais. E depois dirão que está velho demais. ‘’Você não serve’’
Dirão que tudo isso que você sente é besteira e que deveria ser grato por ter um emprego e comida na mesa. ‘’Você não precisa de mais nada’’
Farão você se sentir um lixo, com toda a conotação e utilidade que a palavra carrega. Farão você se arrepender até do que não fez.
Tirarão seus direitos e imporão deveres. Alienados ditarão deveres inalienáveis. ‘’Você não tem direito’’
Tentarão te convencer que é rico o suficiente para pagar os impostos e pobre demais para fazer o que sonha. ‘’Você precisa ganhar dinheiro. Não precisa estar satisfeito’’
Incutirão no seu espírito a ideia de que não pode mudar. ‘’Você precisa ser forte’’
Criticarão suas ideias e dirão que elas estão fora da realidade. ‘’Você não sabe nada da vida’’
Criarão desejos e produtos inúteis para te fazer comprar.
Farão com que você sinta vergonha do seu sucesso. Você terá que se esconder da inveja e maldade daqueles que seguem sem pensar. ‘’Você não está fazendo mais do que a sua obrigação’’
Discutirão seus valores e opiniões. Chamarão de burra a sua ideologia. ‘’Você é influenciável. Não tem opinião’’
Dirão que aos vinte e poucos, não se entende de nada. Deve-se apenas viver a inconsequência da juventude. ‘’A juventude está perdida’’

Tentarão te fazer acreditar que sujeitos ocultos controlam sua mente, vida e vontades. Eles não te conhecem e você não os conhece. Por que obedecer então?

Não acredite em mais nada.





Luana Ribeiro

quarta-feira, 10 de abril de 2013

E quem é mesmo que eu sou?




Disse o misterioso gato que para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve. Mas para quem sabe onde vai, o gato não disse nada. Ou para quem pensa que sabe. Será que sabemos mesmo para aonde vamos?
Tenho pensado demais nos últimos dias. Em tudo. No tempo que passa, no que vai passar, no que pode ser... Hipótese. Tudo é hipótese.  O futuro é uma possibilidade que se multiplica a cada vez que penso sobre ele. A sabida boneca Emília disse que a gente vira hipótese depois que morre. Eu acho que a vida que é hipótese. Pura hipótese sobre coisas que ignoramos. Somos ignorantes até sobre nós mesmos.
Passo os dias pensando, formulando e criando uma história para mim. História que nem sei mais se gosto ou desgosto. Ontem sabia exatamente aonde queria chegar e hoje não sei mais se estou no caminho que deveria. Ou que escolhi. Ou que me foi imposto. Não sei. Eu não sei na verdade quem eu sou. 
  Não sei onde chegar, mas quero chegar rápido. Estou atrasada, estou atrasada! 
  Existir é um fato complicado e dolorido. A lagarta me aparece a todo momento e pergunta: ''Quem é você?'' Um medo danado de não seguir o que me foi dado, me foi predestinado e presenteado. Um presente de presente e um futuro sem saber o que vai ser. Será mesmo que é tudo nos dado de presente? Será que é tudo isso em vão...
Tenho aprendido pouco, muito pouco, sobre autocompaixão. Engana-se quem pensa que compaixão é apenas pena. É o sentimento de se colocar no lugar do outro, de compreender. Colocar-se em seu próprio lugar. Sofrer as suas próprias dores e deixar de ser o próprio algoz. É difícil compreendermos a nós mesmos. Mais ainda é entender que não temos todas as respostas e que às vezes nem sabemos direito quais são as perguntas. Eu não sei. Sinceramente, eu não sei de nada. Não sou mais a mesma que vi através do espelho pela manhã. 
Aqui fala uma pequena criança em crise. O teto se aproxima rápido demais da minha cabeça, mas não consigo passar do buraco da fechadura. E agora? O que é mesmo que acontece?


Luana H. 

sábado, 9 de junho de 2012

A vida em pedra bruta.


'' Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi''

Caetano Veloso


Dói estar em São Paulo. Pesa. Mesmo nos dias em que o esteriótipo de cidade cinza não aparece. Mesmo quando há sol, é dolorido estar em São Paulo.

Descobri que era apaixonada por São Paulo quando li o título, apenas o título, de Paulicéia Desvairada, do Mário de Andrade. Eu não sabia do que se tratava ainda, mas sempre fui apaixonada pela loucura. Ainda mais se fosse literária.
O título me despertou curiosidade pelo livro e pela cidade. 
Essa São Paulo que atrai todo tipo de gente e que cria todo tipo de gente. Uma mãe desnaturada que está sempre de braços abertos para seus filhos, ainda que não possa criá-los. Se na criação de Roma, a loba alimentou Rômulo e Remo, em São Paulo não houve loba. Houve lobo. Lobos. Lobos, cachorros-do mato e serpentes que ainda rondam trajando terno e gravata, prontos pro bote.

São Paulo atrai e trai. Andando pelo ruas, é possível ver sonhos dormindo nas calçadas.
Dói. São Paulo dói. E pulsa.

A poesia de São Paulo não pode ser percebida por aqueles que odeiam o trânsito, odeiam a poluição, odeiam a pressa e resumem a cidade a isso. Esquecem-se de que a gigante incompreendida é feita de pessoas com histórias diversas, que amam e sonham como os cariocas, baianos, paraenses, nordestinos, mineiros, caipiras...
Ama e sonha como todos eles porque é feita de todos eles.

São Paulo é o Brasil em pedra bruta. Ás vezes não há beleza nas imagens do noticiário das 6. Não há beleza nas enchentes, nos crimes, no frio que sentem os desabrigados.  Não há beleza na morte indigna.

Há beleza nessa cidade que pulsa, que modifica vidas, que inspira. Há muita beleza nessa cidade feita de pessoas que trabalham muito. Há beleza no grito que ecoa do alto dos prédios, das estações, das periferias, dos muros, do cotidiano sufocante. Há beleza na cidade que não dorme e não se cala.

São Paulo é a vida que pulsa, que fere, que é bonita, que cura, que canta, ri e chora as próprias dores. São Paulo é a vida em pedra bruta. 




Luana H.

sábado, 31 de março de 2012

Encantada.

'

'Toda aula devia começar assim: LUZ CÂMERA AÇÃO. SONHANDO.''
Sérgio Vaz



Não sei se nasci professora. Não sei se sonhava em ter tantos papéis para corrigir, tantos livros para ler e tantas histórias para conhecer. Não sei se eu nasci com essa utopia no coração.

Lembro-me que, quando pequena, aliás, desde pequena, falava muito. Gostava muito de argumentar. Não passei pela fase de perguntar os porquês das coisas, pois eu mesma dava conta de responder. Ou de imaginar, pelo menos. Não sei se eu falava muito. Acho que eu pensava muito, pois, dentro de mim, o barulho era constante.

Queria ser advogada, disso eu me lembro. Eu não sabia bem o que isso significava, mas eu queria. Achava muito legal ver na TV que pessoas boas podiam ser defendidas por advogados. Acho que eu desisti quando eu entendi que pessoas más também contratam advogados.

Quando comecei a me apaixonar pelos livros (quando eu comecei a ler), queria ser escritora. Dobrava folhas sulfite, fazia algumas ilustrações e escrevia meus livrinhos. É realmente uma pena eles não terem sido publicados. Ou guardados pela minha mãe.

Desisti de pensar no que eu queria ser. Só sabia que eu gostava muito de falar (ou seria de pensar?) e de histórias. E histórias de pessoas! Não gostava de bicho não. Tinha medo dessas histórias que envolviam dinossauros ou bichos falantes. Gostava era de gente.

Gostava muito das músicas que a ‘’gente grande’’ ouvia. Zé Ramalho, Milton Nascimento, Djavan, Elis e todos aqueles da jovem guarda que eu ouvia minha mãe cantarolar. Aliás, nasci quase no dia do especial do Roberto Carlos de 1991. Ainda bem que deu tempo de assistir.

Os livros sempre foram meus conhecidos. Eu achava o máximo poder viver tantas histórias e depois, quando estivesse cansada, voltar para a minha vida. Ás vezes eu queria ficar nos livros, como quando li a coleção dOs Karas, do Pedro Bandeira. Magrí era uma menina tão diferente de mim e tinha tantos amigos legais que eu me cansava de ser eu mesma e queria ser ela.

Não me lembro de um dia ter desejado ser princesa. Gostava das histórias, mas não achava a menor graça nisso de ficar presa em torre, engasgada com maçã e longe dos pais. Eu sempre pensava: E por que a princesa não falou alguma coisa bem mal-malcriada para a bruxa? Por que não gritou, não correu, não fez um discurso cheio de moral para a bruxa?

Enfim. Cresci e descobri que queria ser jornalista. Aos 14 anos, tinha certeza. Sonhava em ver meus textos publicados, expressando meus pensamentos, opiniões, ser livre para contar o que acontecia... Ingenuidade pura. Não seria nada disso. Faria por dinheiro, pela opinião que pagasse mais. Teria a liberdade do tamanho da corda que o patrão permitisse. Não. Meu pensamento não iria suportar essa amarra.

Parti para o teatro. Expressei sentimentos, testei meus limites, descobri coisas dentro de mim que eu nem imaginava que existiam. Aprendi a dar a cara a tapa e esperar o tapa. Ou o beijo. Dei o tapa e dei o beijo. Mas ainda não era quem eu queria ser.

Não sei como, não sei quando, fiquei encantada. Fiquei encantada e queria também que outros conhecessem esse encantamento. Esse encantamento que faz com que se possa viver mil vidas, mil sentimentos e nunca mais ser o mesmo ao fechar um livro. O encantamento que faz com que a gramática, tão temida, ensine a brincar de dizer ‘’ a gente também sabemos’’ ser gente. Encantamento que permite ler não só os textos, mas as pessoas. Ler cada história escondida no dia-a-dia corrido. Um encantamento tão forte que faz querer dizer tudo que o coração manda, que faz querer braços grandes o suficientes para abraçar o mundo e fazer cafuné nas estrelas e ter um coração desenhado por criança.

É isso. Decidi ser professora quando fiquei encantada.


Luana H.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Meu amor, essa é a última oração...


Termino esse ano com a sensação de que há muita coisa para ser feita no ano que se iniciará. Graças a Deus há muito o que continuar, muito o que terminar. 2011 foi um ano fantástico.
Em 2012 eu desejo amar ainda mais a minha história e as pessoas que fazem parte dela.
Desejo que o meu sorriso permaneça. Este ano descobri o adjetivo solar e nunca mais quis que ele fosse outra coisa.
Desejo compreender mesmo as coisas ditas incompreensíveis. Ainda que eu não compreenda, que eu possa compreender que não compreendo.
Desejo que minhas mãos tenham força para segurar firme as rédeas e não vacilar. Que não me falte vontade e curiosidade por viver.
Que eu possa ser o melhor de mim. Amém.

Na verdade, hoje eu só quero que o dia termine bem...


Luana H.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Palhaço



"O gato bebe leite.... O rato come queijo... E eu sou o quê?''

Ainda estou sob o efeito de encantamento do filme O Palhaço, dirigido pelo maravilhoso Selton Mello. Este texto não será propriamente uma resenha, mas uma tentativa de expressar os sentimentos e pensamentos que o filme despertou em mim.
Antes de tudo, preciso avisar que sempre tive paixão por palhaços. O palhaço é a forma mais pura de representação dos sentimentos humanos. De um lado a alegria, o riso, o ''ser bobo por vontade'', o espírito de criança... Do outro lado a lágrima, a vontade de entender o que não se pode entender, o sorriso que não acontece.
Ao palhaço tudo é permitido. É permitido ser bravo, ignorante, meigo, bobo, ingênuo, esperto. É permitido porque o palhaço não fere. A doçura é intrínseca.
Em O Palhaço, Selton Mello e Paulo José mostram essa doçura com maestria. A grande mensagem do filme é expressa pela frase que inicia este post. Se cada um deve fazer o que sabe, o que sou eu então? E por quê um palhaço para representar esta escolha?
Acredito que o palhaço é a representação de um estado da alma. Não é simplesmente fazer rir. É fazer fazer cócegas nos sonhos das pessoas. Não é simplesmente uma profissão. Muitas pessoas são médicos, engenheiros ou professores apenas da porta do consultório, do escritório ou da sala de aula pra dentro. Fora de lá são pessoas completamente diferentes. E, para mim, a grande pergunta foi: E você? É realmente o que escolheu ser?
O ventilador, que tanto atormentou os pensamentos de Benjamim, me pareceu a necessidade de ventilação que os sonhos tem. Temos a terrível mania de nos sufocarmos com compromissos e preocupações e acabamos nos esquecendo do que realmente importa: a essência daquilo que escolhemos fazer.
Um filme que realmente merece ser visto. Não só por todos esses pensamentos e sensações lindas que ele provoca, mas também pela produção e elenco. Atores consagradíssimos fazendo pequenos papéis, mas de suma importância.
Outro fato que me deixa muito orgulhosa do cinema brasileiro é este filme não precisar de baixaria e palavrão para ser forte e intenso.
E viva o cinema brasileiro!


Luana H.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre olhares e fracassos


''Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?''
Álvaro de Campos

Digam-me! Onde há gente nesse mundo?
Estou, assim como Álvaro de Campos, farta de pessoas boas em tudo. Gente que não erra, que não tem espinha, que nunca escolhe a roupa errada ou com um furo. Que só conhece a felicidade. Gente que não ri da própria desgraça, mas adora rir da desgraça alheia.
Acho que somos muito mal preparados para a infelicidade e para o fracasso. É feio chorar e dizer que não deu certo. O fracasso é jogado para debaixo do tapete e nunca é superado, afinal de contas, é mais fácil falar: ''Coitado, deixa ele. Ficou traumatizado.'' E assim vamos criando uma sociedade que cada vez mais infantil e fraca nos princípios...
Faço estágio em uma escola de ensino médio próxima a minha casa. Observo muito o comportamento dos alunos e tenho vontade de dizer para alguns: ''Meu bem, a vida não é assim. Você tem tantas chances de abrir essa mente... Vamos lá. Não é feio pedir ajuda.''
Vejo a frequente exibição de notas baixas como troféus. Se não se pode tirar a nota alta, então que se faça da nota baixa a meta a ser alcançada. É mais fácil adaptar as regras do jogo a nosso favor. Assim como as crianças fazem.
Temos que ser as mais bonitas, as mais inteligentes, saber tudo sobre tudo, não pegar no pé, não ter ciúmes, não deixar a relação cair na rotina, ter um bom emprego. E não reclamar. Cobramos companheiros perfeitos que trazem flores, chocolates na TPM e palavras preparadas especialmente para aquele dia que tudo deu errado. Que sejam atenciosos, inteligentes, engraçados, independentes.
''Se não for assim, não quero!''
''Se não for perfeito, eu não quero.''
''Não quero um fracassado na minha vida.''
Infelizmente os mais velhos tem razão: A vida não é só felicidade.
Comecei com Pessoa e gostaria de citar outro Fernando, mas desta vez o Sabino:

"De tudo, ficaram três coisas: 
a certeza de que ele estava sempre começando, 
a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. 
Fazer da interrupção um caminho novo. 
Fazer da queda um passo da dança, 
do medo uma escada, 
do sonho uma ponte, 
da procura um encontro." 

É preciso olhar a derrota com outros olhos. Abandonar o pensamento infantil de que toda a vida se acabou ali, naquele momento, naquele insucesso. Não, não acabou. A vida sempre continua. That's the way, baby.


Luana H.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pra onde foi a coragem do meu coração?

''Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.''

Estamos mortos. Todos mortos.
A família está falida, o casamento está falido, a igreja está falida, a escola está falida, a política está falida. O amor está falido.
Como diria Nietzsche, em sua frase mais mal interpretada da história, Deus está morto.
É incrível como a descrença atingiu essa sociedade do século XXI. Não falo de crença religiosa, falo de acreditar em si, no mundo, na vida.
Até acho compreensível que se tenha perdido a fé em muitas coisas, afinal de contas, poucas coisas ainda são verdadeiras. Coisas boas, porque as ruins tem sido verdadeiras até demais.
Acho compreensível, mas não aceitável. Não acho aceitável um adolescente de 15, 16 anos colocar um fone no ouvido e passar a aula toda assim e achar que tá tudo bem. Ou melhor, passar o dia todo assim e achar a coisa mais normal do mundo não ouvir nada que ninguém diz. Não acho aceitável essa necessidade de falar, falar, falar e não dizer nada. Não acho aceitável viver como se estivesse morto.
Onde estão as boas ideias? Elas existem, é claro. Mas cadê a vontade de compartilhar, de ver os olhos brilharem ao defender uma ideia?
O brilho nos olhos é cada vez mais escasso e por isso acho que estamos, se é possível, cada vez mais mortos.
Quando o despertador da humanidade vai tocar de novo? Será que só vamos acordar com o barulho dos tiros?
Gostaria de saber em quais corações se esconde aquele desejo de mudar o mundo que sempre foi próprio do jovem. Parafraseando Renato Russo, gostaria de saber quem roubou nossa coragem.


Luana H.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Castanho-esverdeado.

''Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim -enfim, mas que medo- de mim mesma."
Clarice Lispector

Andei sumida. Mas ando pensando muito. Em muitas e variadas coisas, como o que minha vida está se tornando, os caminhos, os rumos, o destino que eu mesma estou escolhendo e traçando pra mim. Pensando nas aulas que eu tenho que dar, pensando em como fazer a diferença para essas crianças. Pensando e tentando lembrar de detalhes do passado... Sabe aquelas coisas que você tem que parar de pensar para não enlouquecer ou não criar perguntar demais? E tenho pensado muito muito muito... E vendo e escrevendo muito pouco.
Ontem me vi em um conto que poderia ter sido escrito por Clarice. Eu estava olhando algumas fotos minhas de quando eu era pequena. Quando eu era bebê, tinha os olhos verde-escuros, assim como eles ainda ficam quando eu choro ou me exponho demais ao sol. Outra coisa que sempre chamou atenção nas fotos é uma manchinha na barriga que eu tenho até hoje.
E vendo essas fotos me peguei surpresa ao olhar para a minha barriga e descobrir que a mancha ainda está lá. Corri para o espelho, olhei bem fundo dos meus olhos e fiquei procurando o verde-escuro. Encontrei.
O que me surpreendeu não foi a mancha continuar lá ou a cor dos meus olhos ainda ser mesma. Aliás, muito pelo contrário, pois são fatos totalmente previsíveis. O que me deixou impressionada foi como eu estou me esquecendo de quem eu sou e dessas pequenas coisas que me fazem assim. Acho que o verbo mais adequado não é esquecer, mas sim perceber. Estou não estou mais percebendo estas pequenas coisas que me fazem ser quem eu sou. Eu sempre gostei da minha mancha na barriga. E o verde-escuro ou castanho-esverdeado dos olhos também. Adorava, e ainda adoro, quando alguém repara.
Pequenas coisas que me fazem perceber que penso tanto, me preocupo tanto ''comigo'' mas não consigo mais ver claramente o ''eu'' que sempre fui.

Luana H.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ninguém = ninguém

''Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.

[...]
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho impar''
Carlos Drummond de Andrade

Drummond é fantástico. Ele sim era um real ímpar. Glorioso ímpar. Saudoso também, é claro.
Pois bem. Tenho medo de muita coisa que eu tenho lido, sabe. Acho que estamos em uma época que todos temos receitas de sucesso para tudo. ''Como arrumar um namorado'', ''Como fazer sua vida mais feliz'', ''Como lidar com o tipo x de pessoa''. Ótimo. Estamos com todos os problemas resolvidos. ou não
Criamos um contrato inconsciente com a perfeição. Nos obrigamos a ler mil listas e nos sentirmos infelizes por não cumprirmos todas as cláusulas. Assinamos o contrato sem ler, meu amigo. E agora, José?
Claro, para muitas coisas nessa vida existem técnicas. Técnicas praticamente infalíveis, eu arriscaria. Mas e para o ser humano? Para lidar com pai, mãe, irmão, namorado, amigo, marido... Cadê essas técnicas realmente infalíveis?
Confesso que caio nessa armadilha com frequência. Vez em sempre me pego lendo esses blogs que dão mil dicas sobre relacionamentos. E não me sinto bem. EU FAÇO TUDO ERRADO!
Homens gostam disso desse jeito e mulher gostam disso de outro jeito. Eles estão mentindo se disserem que vão dormir. Elas fingem orgasmo. E metade do mundo vai levar como verdade. Ou dar um bom crédito a veracidade da informação. Assunto recorrente nessas listas é o sexo, obviamente. Em alguma coisa vamos nos sentir inseguros quanto a isso. Não importa o que for, a lista vai apontar o dedo no seu nariz e tentar te convencer que você não é sexualmente atraente o suficiente. Com toda aliteração que a acusação me permite.
O que fazer, como fazer, como olhar, como tocar o outro. Não estou dizendo que tudo é de se jogar fora, por favor.Mas e se o outro não gostar de nada disso? E se eu não gostar de nada disso?
Esses dias, nessas andanças no mundo dos conselhos amorosos, li um texto muito interessante no Papo de Homem. Com certeza vale a leitura!
Como ele diz no final, tesão pela vida, meu povo. O tesão pelo outro, do outro por você, vem na esteira.
Enfim, acho que o único ponto que eu quero chegar com isso é que o ser humano não tem receita que garanta o sucesso. Somos ímpares, como bem disse Drummond. Ímpares em sentimentos, ações, personalidade, gostos e, principalmente e felizmente, em pensamentos.

Luana H.

domingo, 17 de julho de 2011

Daquilo que verdadeiramente somos.

''Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.''
Martha Medeiros

Este marasmo tempo de férias de tudo tem me levado a uma pergunta única e constante: Quem sou eu de verdade?
Sim, essa pergunta tão fatal, simples, filosófica, retórica, essencial, infantil, sei-lá-o-que-mais. Foram muitas consagradas tentativas de iluminar esse caminho tão complexo. De Lewis Carrol, com a curiosa Alice, ao fabuloso José Saramago, com o romance mais dolorido e verdadeiramente humano que eu já li.
É difícil aceitar que a descrição de Luana, e toda formação imaginária que ela traz, possa responder essa pergunta.
E realmente não responde. A Luana professora não mostra que o que ela é agora traz a lembrança de muitas professoras. Traz aquela aula em que a professora falou sobre como só podemos ser interiormente atingidos se deixarmos. Traz aquela aula em que um assunto polêmico foi discutido ou aquela outra em que lemos um texto sobre o valor da amizade.
A Luana amiga, sorridente e engraçada não deixa tão evidente que aquelas tardes de conversa e tentativa de estudo deixaram marcas profundas. Boas e ruins. Meu rosto não mostra aquele abraço com lágrimas nos olhos que eu dei nos meus melhores amigos da oitava série no último dia de aula.
Eles não sabem que sou feita de livros, músicas, lágrimas, sorrisos, momentos bons, ruins. E outro fato curioso é que nem eu mesma sei o que forma essa estranha matéria. Como diria Alice, ''Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma''.
Não sei quais são esses pequenos pedacinhos que formam uma pessoa inteira. Não sabemos e ainda assim caímos nessa armadilha e achamos que conhecemos o coração das pessoas ao ponto de julgá-las. De dizê-las o que pensar, o que não pensar, o que achar,o que dizer, o que comer, o que vestir. Ou pior ainda, achamos que as pessoas são realmente o que vestem, o que comem, o que dizem.
Afinal de contas, como diria o grande José Saramago ''dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos''.

Luana H.


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Egoísmo. Oportunismo. Amor.

'' Mas quem tem coragem de ouvir

Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento...''


Quem não acompanhava o Contos e Confissões ainda não sabe de uma grande paixão que venho descobrindo: Sou professora.

Confesso que a profissão que escolhi me emociona muito e me inspira diversos sentimentos. Nobres ou não, o maior deles é o egoísmo.

Pois bem. Resolvi ser professora por puro egoísmo. Isso. Egoísmo puríssimo.

Egoísmo porque vejo neles traços dos meus colegas de escola, dos meus momentos de escola e, até mesmo, traços de mim mesma.

Egoísmo porque projeto neles o que eu fui, o que eu não fui, o que gostaria de ter sido...

Egoísmo por me sentir responsável, um pouquinho que seja, pelo futuro deles.

Profundamente egoísta porque quando vejo o desespero deles diante de uma prova ou um trabalho da escola, lembro que eu já passei por isso. E assim como eles, achei que nunca ia passar. E passou. Assim como tudo vai passar, menos as boas lembranças.

Egoísta ao ponto de procurar no rostinho deles semelhanças com o meu e pensar: Será que meu filho vai ser assim?

O amor de adolescente, o riso sincero da brincadeira de criança, a amizade que parece ser eterna, o companheirismo. Um egoísmo que me permite olhar de outro modo tudo isso, sabendo que já passei por aquilo e sinto muita saudade. Ou será inveja?

Oportunismo. Isso. Oportunismo. Aproveito-me da oportunidade de conviver com o fruto de nove meses de espera de outra mulher para experimentar um pouquinho da sensação de querer proteger e educar uma criança. Da vontade de querer aplacar suas dores, abraçar, ver o desenvolvimento, chorar de emoção nas apresentações. Experimentar um pouco, mas bem pouco mesmo, do que é ser mãe.

Não. É egoísmo mesmo. Egoísmo porque tiro deles a força para continuar, mesmo quando todas as vozes dizem que não vai dar certo.

Egoísmo do mais puro, e por que não do mais nobre também, porque tenho o sonho utópico de que as palavras levadas por meus alunos ainda vão mudar o mundo.


Luana H.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

L.


''One forgotten phone call and I'm deflated
Oh these little defenses how they fail to comfort me
Your hand pulling away and I'm devastated...''
Alanis Morissette - So Unsexy

13 anos para sempre?
Algumas amigas superficiais. Uma paixão platônica para se distrair.
E, pra completar, uma ideia que ainda me assola. A sensação de ser substituta em tudo. Nunca o primeiro plano. Jamais o motivo de preocupação e aborrecimento. Nunca a irresponsável, a errada. De uma maturidade absurda e ridícula. Desnecessária. A problemática que não se revela como tal.
Agora não importa a idade que eu tenha, pois sempre tive a mesma. O que mudaram foram as experiências e o que aprendi com elas. .
Sempre tive por volta de 40 anos. Sempre compreendi, nunca chorei em público porque estava decepcionada. A sensação de um tapa no rosto dado com palavras sempre foi sufocada: Estou bem. Eu entendo. Imagina, não tem porque eu ficar mal por isso.
E por dentro, bem lá no fundo onde ninguém vê, sempre tive 13 anos. Palavras que doeram feito tapas, socos, empurrões. Lágrimas que foram libertadas no esconderijo, ridiculamente sufocadas em público. Não poderia então uma criança chorar? Você tem que ser forte.
Chorar escondida. Sorrir sempre. Sorrir olhando no espelho, ainda com as lágrimas nos olhos, para tentar parecer uma atriz famosa.
Penso que talvez seja essa a minha poesia. Esse conformismo velado. Essa beleza de não ser a principal, mas sim a alternativa. Aquela que se procura quando a principal não agrada. Quando toda a expectativa com a ''mulher inatingível'' foi quebrada. Quando manter-se no limite da perfeição é demais, é insustentável. Quando se precisa daquela beleza que se acha nos cantos, no imperceptível.
Porque talvez em mim esteja a esperança. A última esperança. A esperança que se não encontra no brilho ofuscante, mas na calma da luz.

Luana H.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Hello, moonshiners!

Hello =)

Após uma longa hibernação, estou de volta. Blog novo, cara nova, nome novo.
Pois bem... Depois do Contos e Confissões e Sina Nossa, apresento-lhes I'm a moonshine.
Moonshine? Yes, Moonshine.
Sim. Moonshine é um tipo de bebida vendida pelo contrabando inglês.
Moonshine vem do verbo "moonshining", que designa qualquer profissão ou atividade que é feita na calada da noite.
Moonshine também significa conversa sem nexo, divagação.
Well... Agora temos o sentido.
O que verão aqui são conversas sem nexo, produzidas loucamente nessa mente constantemente clandestina.

Loucura? Sim, loucura.

” Sim, você é louco, louquinho. Mas vou lhe contar um segredo: as melhores pessoas são assim.
Alice no País das Maravilhas